História, Revelação e Método Teológico
1. O Caráter Histórico do Cristianismo
O cristianismo é uma religião essencialmente histórica. Essa afirmação não se limita ao fato de o cristianismo se desenvolver no curso da história humana, mas indica que sua mensagem central está fundada em acontecimentos concretos, situados no tempo e no espaço.
Jesus Cristo nasce aproximadamente entre os anos 4 e 5 antes de Cristo e morre por volta do ano 30 depois de Cristo. Essa aparente incongruência cronológica decorre de um erro no cálculo do calendário cristão realizado por Dionísio Exíguo, nos séculos V e VI. Posteriormente, estudos históricos demonstraram imprecisões nesse cômputo do tempo, o que explica a datação atualmente aceita.
Dessa forma, Jesus Cristo teria vivido aproximadamente entre 30 e 33 anos, reforçando o caráter histórico e concreto da fé cristã.
2. História Profana e História da Salvação
O cristianismo não é histórico apenas porque surgiu na história, mas porque compreende a comunicação de Deus e a salvação do homem como acontecimentos que se realizam no tempo e na história.
Cada vez que Deus intervém na história humana, está-se diante daquilo que a tradição cristã denomina história sagrada ou história da salvação (Historia salutis). Em contrapartida, quando os seres humanos agem por iniciativa própria, tem-se a chamada história profana ou história secular.
O termo profano não possui, nesse contexto, sentido pejorativo. Etimologicamente, refere-se àquilo que está fora do templo (pro fanum), isto é, fora do espaço sagrado. Assim, a história profana é o resultado da ação humana, enquanto a história sagrada consiste na ação de Deus dentro da história profana.
3. O Início da História da Salvação: Abraão
A história da salvação inicia-se de modo mais preciso com a figura histórica de Abraão. Embora a criação do mundo seja obra direta de Deus, falar de história em sentido estrito pressupõe a existência do ser humano, por meio do qual Deus atua historicamente.
Antes de Abraão, os dados históricos são escassos. Personagens como Adão, Noé e os patriarcas anteriores carecem de testemunhos extrabíblicos consistentes. Abraão, por sua vez, constitui o primeiro personagem bíblico para o qual existem referências históricas mais concretas.
Além disso, Abraão é o tronco comum das grandes religiões monoteístas. Seu chamado inaugura um processo histórico de revelação no qual Deus se manifesta progressivamente.
4. Do Politeísmo à Monolatria e ao Monoteísmo
Na experiência religiosa de Abraão, observa-se inicialmente não um monoteísmo pleno, mas uma forma de monolatria. Abraão é chamado a adorar um único Deus, sem que, num primeiro momento, se explicite claramente a inexistência de outros deuses.
Ao longo da narrativa bíblica, especialmente a partir de Gênesis 12, percebe-se um processo gradual de revelação, no qual a monolatria se transforma progressivamente em monoteísmo. Deus não se revela de modo imediato e absoluto, mas conduz Abraão pedagogicamente à compreensão de que somente Ele é Deus.
Esse caráter progressivo da revelação confirma que Deus age na história e através da história.
5. A Centralidade dos Acontecimentos Históricos na Fé Cristã
O cristianismo fundamenta-se em acontecimentos históricos concretos. Não se trata apenas de uma fé em ideias abstratas, mas em fatos reais.
A importância da história é enfatizada pelo próprio São Paulo, especialmente em 1 Coríntios 15, ao afirmar que, se Cristo não ressuscitou, vã é a fé cristã e inútil a esperança dos fiéis. A ressurreição não é apresentada como símbolo, mas como evento histórico decisivo.
O anúncio apostólico está profundamente enraizado na história. Os apóstolos arriscam a própria vida ao proclamar que Jesus foi crucificado e ressuscitou, dirigindo-se inclusive àqueles que participaram diretamente de sua condenação.
6. A História como Fonte da Teologia
A história constitui uma das fontes fundamentais da teologia. A Tradição não é concebida como um depósito estático, mas como um processo dinâmico, comparável a um rio que atravessa a história.
A Sagrada Escritura é compreendida dentro da história; o Magistério exerce sua função ao longo da história; e a própria teologia se desenvolve historicamente. Não se pode compreender adequadamente nenhum desses elementos sem referência ao contexto histórico em que se manifestam.
7. A Linearidade da História Cristã
A concepção cristã da história é linear, marcada por começo, meio e fim. Diferentemente de visões cíclicas, comuns a algumas religiões orientais, o cristianismo afirma que a história não se repete indefinidamente.
A história cristã pode ser sintetizada em três momentos fundamentais:
- Protologia: a criação;
- Cristologia: Cristo como centro e ápice da história;
- Parusia: a consumação final.
Essa linearidade confere à vida humana um profundo senso de responsabilidade moral, pois não há sucessivas oportunidades de recomeço em ciclos infinitos. Cada pessoa possui uma única história, com início, desenvolvimento e fim.
8. Vida Pessoal e História da Igreja
A vida humana reflete essa mesma estrutura linear: nasce-se, encontra-se Cristo e caminha-se para a morte e a eternidade. Do mesmo modo, a história da Igreja é orientada para sua plenitude escatológica.
Essa visão linear fundamenta a seriedade da existência cristã e impede uma compreensão relativista ou irresponsável da vida moral.
9. Concepções Filosóficas da História e sua Secularização
No pensamento ocidental, diversas concepções de história foram desenvolvidas. Uma das mais influentes é a de Hegel, que procurou secularizar a visão cristã da Providência.
Em Hegel, a história é entendida como o desenvolvimento da razão, no qual o real e o racional coincidem. Essa visão influenciou profundamente o pensamento de Karl Marx e as concepções materialistas e totalitárias da história.
Essas perspectivas tendem a retomar uma visão cíclica, na qual os conflitos se repetem indefinidamente, como se observa nas dinâmicas das revoluções sociais.
10. História, Magistério e Doutrina Social da Igreja
A compreensão histórica é essencial para interpretar corretamente os documentos do Magistério. Um mesmo tema — como a liberdade religiosa — pode ser abordado de maneiras distintas conforme o contexto histórico, sem que isso implique contradição doutrinal.
A doutrina social da Igreja, por exemplo, não possui caráter dogmático imutável. Trata-se de uma aplicação dos princípios do Evangelho às realidades históricas concretas, como se observa nas encíclicas sociais desde Leão XIII até os tempos atuais.
A Igreja não absolutiza sistemas políticos específicos, como a monarquia ou a democracia, mas procura iluminar cada sistema com a luz do Evangelho, conforme as circunstâncias históricas.
11. A Importância da Perspectiva Histórica no Método Teológico
A teologia contemporânea reconhece amplamente a importância da história. Autores como Romano Guardini, Hans Urs von Balthasar, Jean Daniélou, Yves Congar e Joseph Ratzinger evidenciam essa abordagem histórica em seus trabalhos.
O Concílio Vaticano II reflete claramente essa perspectiva, oferecendo uma visão histórica da Igreja, da Sagrada Escritura e da própria mariologia, como se observa na Lumen Gentium.
12. Prudência, Contemplação e Juízo Teológico
O exercício da teologia exige calma, contemplação e discernimento. O teólogo não deve ser precipitado em seus juízos, mas analisar, estudar, dialogar e rezar antes de emitir avaliações sobre questões complexas.
A absolutização de elementos fora de seu contexto histórico conduz a distorções teológicas. A perspectiva histórica, ao contrário, promove equilíbrio, profundidade e fidelidade à verdade revelada.
13. Considerações Finais
A história é indispensável ao método teológico. Ela permite compreender a ação de Deus no tempo, interpretar corretamente a Revelação e evitar anacronismos.
O cristianismo afirma uma história linear, orientada para a consumação final, na qual Deus age concretamente e chama o ser humano à responsabilidade e à fidelidade. Estar atento à ação de Deus no tempo e na história é condição essencial para uma teologia autêntica e madura.
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