Aula 4: BREVE HISTÓRIA DA TEOLOGIA

1. Considerações Iniciais e Referências Bibliográficas

Esta aula dedica-se ao estudo de uma breve história da teologia. Embora a bibliografia ainda não tenha sido apresentada formalmente neste primeiro módulo, encontram-se, na descrição indicações de obras fundamentais para o acompanhamento adequado do curso.

A base principal adotada é a obra Introdução à Teologia, de José Morales, da editora Eunsa. Os manuais teológicos utilizados pertencem, em sua maioria, à tradição acadêmica da Universidade de Navarra, instituição reconhecida por sua contribuição significativa ao desenvolvimento teológico contemporâneo. Essa tradição intelectual orienta a abordagem apresentada nesta aula.

2. Divisão Pedagógica da História da Teologia

Para fins didáticos, a história da teologia é apresentada em três grandes períodos:

  1. Período Patrístico – correspondente à Antiguidade cristã
  2. Período Escolástico – correspondente à Idade Média
  3. Período Moderno – abrangendo desde a modernidade até a contemporaneidade

O período contemporâneo é aqui incluído no âmbito da época moderna.

3. O Período Apostólico e o Tempo da Revelação

No início do cristianismo, já se encontra uma reflexão teológica profunda nos escritos de São Paulo e dos demais apóstolos. Contudo, esse período ainda pertence ao tempo da revelação, e não propriamente à teologia entendida como reflexão científica da fé.

Distingue-se, na tradição cristã, entre revelação pública e revelação privada. A revelação pública estende-se até a morte do último apóstolo, tradicionalmente identificado como São João. Esse critério, conhecido como critério apostólico, é também compreendido como critério pneumatológico, pois está ligado à ação do Espírito Santo (pneuma) na vida dos apóstolos e de seus discípulos imediatos.

A morte do último apóstolo não deve ser entendida de maneira estritamente cronológica ou instantânea. O critério pneumatológico admite uma extensão temporal que inclui o círculo de discípulos diretamente influenciados pelos apóstolos, como ocorre, por exemplo, com a chamada Escola Joanina.

4. Revelação, Transmissão da Fé e Estrutura da Comunicação Cristã

Durante o período apostólico, não há ainda uma preocupação científica em compreender sistematicamente a fé. O movimento predominante é vertical, da parte de Deus para os apóstolos, e horizontal, dos apóstolos para a comunidade cristã.

A fé surge como resposta à revelação recebida e transmitida. O embrião da fé está completo, mas ainda necessita de desenvolvimento progressivo ao longo da história.

5. A Formação dos Escritos do Novo Testamento

Os escritos do Novo Testamento começam a surgir, em sua maioria, a partir da década de 50 do primeiro século. A destruição do Templo de Jerusalém, no ano 70 d.C., contribui significativamente para a necessidade de fixar por escrito a tradição apostólica.

No judaísmo, o Templo é o lugar do sacrifício, enquanto a sinagoga é o lugar da Palavra. Essa estrutura permanece visível na liturgia cristã, especialmente na Missa, composta por uma liturgia da Palavra e uma liturgia eucarística, que reflete, respectivamente, a sinagoga e o Templo.

6. O Surgimento da Reflexão Teológica Pós-Apostólica

Após o período apostólico, surgem os primeiros pensadores cristãos dedicados à reflexão racional da fé. Destaca-se, nesse contexto, Panteno, fundador da Escola de Alexandria, no século II. Apesar de sua cegueira, Panteno possuía vasto conhecimento da Escritura, transmitido principalmente pela memória e pela oralidade.

Entre seus discípulos, destacam-se Clemente de Alexandria e, sobretudo, Orígenes, considerado o maior pensador teológico da Antiguidade sob o ponto de vista acadêmico.

7. Orígenes e o Desenvolvimento Científico da Teologia

Orígenes representa o ápice do pensamento teológico antigo em termos de método, organização e rigor intelectual. Domínio de diversas línguas permitiu-lhe organizar a Escritura em seis versões paralelas, obra conhecida como a Hexapla.

Embora não tenha sido canonizado, Orígenes exerceu influência decisiva sobre inúmeros Padres da Igreja, sendo citado tanto no Magistério quanto na Liturgia das Horas. Seu pensamento marcou profundamente autores como São Gregório de Nissa, um dos grandes Padres da Igreja.

A ausência de dogmas plenamente cristalizados no período permitiu a Orígenes uma liberdade intelectual significativa, caracterizando sua teologia como uma verdadeira aventura científica da fé.

8. A Teologia Patrística e os Desafios Pastorais

A teologia patrística desenvolve-se, em grande parte, como resposta a desafios pastorais e doutrinais. Um exemplo paradigmático é Santo Atanásio de Alexandria, cuja reflexão trinitária surge em oposição ao arianismo, que negava a plena divindade do Filho.

Os Concílios de Niceia (325) e Constantinopla (381) definem, respectivamente, a divindade do Filho e do Espírito Santo, culminando na formulação do Símbolo Niceno-Constantinopolitano, ainda professado na liturgia.

9. As Grandes Escolas da Antiguidade Cristã

Duas grandes tradições teológicas moldam o pensamento antigo:

Escola de Alexandria: De orientação mais platônica, privilegia interpretações simbólicas e espirituais da Escritura.

Escola de Antioquia: De orientação mais aristotélica, enfatiza a interpretação literal, histórica e sistemática do texto bíblico.

Autores como São João Crisóstomo, representante da escola de Antioquia, exemplificam esse método exegético rigoroso e sistemático.

10. Santo Agostinho e a Transição para a Idade Média

Santo Agostinho de Hipona é compreendido como figura de transição entre a Antiguidade e a Idade Média. Em um contexto de declínio do Império Romano e de invasões bárbaras, sua obra responde aos desafios culturais, políticos e religiosos do período.

A cristianização dos povos bárbaros e a formação da societas christiana marcam o início efetivo da Idade Média, já perceptível nos séculos V e VI.

11. O Período Escolástico e o Surgimento das Universidades

Na Idade Média, a teologia passa a desenvolver-se nos centros catedrais e, posteriormente, nas universidades. Destacam-se instituições como Paris, de tendência platônica, e Nápoles, de tendência aristotélica.

12. Pedro Lombardo e o Método das Sentenças

Nesse contexto, surge o método dialético de Pedro Abelardo, conhecido como sic et non, que utiliza a razão para organizar e discutir os dados da fé.

Pedro Lombardo sistematiza o método teológico ao reunir comentários patrísticos sobre cada versículo da Escritura, dando origem às célebres Sentenças. Esse método torna-se modelo para o trabalho teológico posterior, exigindo conhecimento aprofundado da tradição.

13. Santo Tomás de Aquino e a Consolidação da Teologia Científica

Santo Tomás de Aquino representa o ápice da teologia escolástica, integrando de modo magistral a filosofia aristotélica à teologia cristã. Sua obra estabelece a teologia como ciência rigorosa, com método próprio.

Durante séculos, a teologia dedica-se amplamente ao comentário e aprofundamento de sua obra.

14. A Crise Moderna e a Renovação Tomista

A partir da modernidade, a teologia enfrenta desafios oriundos do racionalismo e da redução da filosofia à gnosiologia. Essa crise afeta inclusive o tomismo.

O Papa Leão XIII, em 1879, promove uma retomada autêntica do pensamento tomista, impulsionando uma renovação teológica liderada por pensadores como Étienne Gilson e Jacques Maritain.

15. A Renovação Teológica dos Séculos XIX e XX

Nos séculos XIX e XX, desenvolvem-se estudos históricos fundamentais, especialmente no campo da Patrologia, com destaque para a monumental coleção da Patrologia Grega e Latina.

Posteriormente, a coleção Sources Chrétiennes torna os textos patrísticos mais acessíveis, contribuindo decisivamente para a renovação teológica do século XX.

16. A Teologia Contemporânea e Joseph Ratzinger

O século XX caracteriza-se por intensa efervescência teológica. Entre seus maiores expoentes, destaca-se Joseph Ratzinger, cuja obra merece estudo aprofundado e sistemático.

A teologia contemporânea, assim como ocorreu na patrística e na escolástica, dedica-se amplamente ao comentário e aprofundamento dos grandes autores do século XX.

17. Considerações Finais

A história da teologia apresenta-se como um desenvolvimento orgânico, que percorre a Antiguidade, a Idade Média e a Modernidade, mantendo sempre a fidelidade à fé recebida dos apóstolos. O estudo teológico exige, portanto, conhecimento profundo da tradição clássica e atenção às contribuições contemporâneas, garantindo continuidade, coerência e autenticidade.

Escute o Podcast com o resumo das aulas 3 e 4

 

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