1. A Necessidade da Filosofia para o Pensamento Teológico
O estudo das relações entre filosofia e teologia é fundamental para a compreensão adequada do pensamento teológico. Não basta apenas dispor de uma linguagem específica ou de uma gramática própria para o desenvolvimento da teologia. Torna-se necessário apoiar-se em filosofias, isto é, em modos estruturados e estruturantes de pensar.
Entretanto, não é qualquer filosofia que pode ser utilizada no âmbito teológico. Nem toda filosofia é adequada à reflexão sobre o mistério revelado. Por isso, faz-se necessário compreender as relações entre filosofia e teologia, a fim de discernir quais tipos de filosofia e quais abordagens teológicas podem servir de fundamento para a construção do pensamento teológico.
2. O Nexo Intrínseco entre Filosofia e Teologia
O nexo entre filosofia e teologia é intrínseco. A teologia é uma ciência pensada; sendo assim, exige uma forma correta de pensar. Para pensar adequadamente, é indispensável uma estrutura racional, a qual é fornecida pela filosofia.
Embora a teologia se mova no nível da fé, pois dela deriva, e conheça realidades que a razão natural não pode alcançar por suas próprias forças, existe uma afinidade profunda entre filosofia e teologia. A razão, por si mesma, não é capaz de descobrir nem de conhecer plenamente as verdades reveladas, mas pode oferecer instrumentos adequados para pensá-las de modo ordenado e coerente.
3. A Filosofia como Busca da Razão Última da Realidade
O exercício filosófico supõe a observação da realidade do mundo e a reflexão sobre a totalidade do que existe, buscando sua razão última e seu significado. Nesse sentido, a filosofia aproxima-se naturalmente da teologia, pois ambas se interrogam sobre as causas últimas da realidade.
A filosofia que se encontra mais próxima da teologia — especialmente da teologia dogmática — é a chamada teologia natural, que corresponde ao terceiro nível da metafísica, particularmente da metafísica de orientação aristotélica, assumida e desenvolvida por Santo Tomás de Aquino.
Além disso, a teologia necessita de uma antropologia filosófica adequada, especialmente no âmbito da teologia moral, que trata de temas éticos e morais. Do mesmo modo, é indispensável uma hermenêutica filosófica consistente para o estudo da Sagrada Escritura.
Dessa forma, em todos os grandes campos da teologia, torna-se necessária a presença de uma ou mais filosofias de fundo que deem suporte ao pensamento teológico.
4. Teologia como Fé Pensada Cientificamente
A teologia pode ser definida como fé pensada cientificamente. Sendo assim, exige métodos rigorosos de investigação, análise e reflexão. Pensar cientificamente implica pensar de modo ordenado, sistemático e coerente.
A filosofia, enquanto ciência, oferece os instrumentos necessários para esse tipo de pensamento, fornecendo à teologia as categorias, os métodos e as estruturas racionais que possibilitam uma reflexão rigorosa sobre a fé.
5. A Tese da Helenização do Cristianismo em Adolf von Harnack
No início do século XX, o historiador Adolf von Harnack ministrou conferências sobre a essência do cristianismo, posteriormente reunidas na obra A Essência do Cristianismo. Nessa obra, Harnack sustenta que os cristãos das primeiras gerações teriam maculado o Evangelho de Jesus Cristo ao incorporar elementos da filosofia grega ao anúncio cristão.
Segundo essa tese, conhecida como tese da helenização do cristianismo, a inserção de categorias filosóficas gregas teria comprometido a pureza original do Evangelho, introduzindo elementos pagãos na fé cristã.
De fato, é inegável que os primeiros cristãos utilizaram conceitos filosóficos gregos. Basta observar o uso da filosofia em Justino de Roma, a estrutura jurídica e filosófica presente em Tertuliano, ou ainda a linguagem adotada no Concílio de Niceia (325), quando se empregou o termo substância (ousía) para expressar a consubstancialidade das Pessoas da Santíssima Trindade.
Esse conceito de substância tem origem aristotélica e pertence às chamadas categorias aristotélicas, segundo as quais existe uma substância e nove acidentes.
6. A Coerência da Crítica de Harnack no Contexto Protestante
A posição de Harnack revela-se coerente dentro do contexto protestante, especialmente à luz do pensamento de Martinho Lutero, que afirmava a corrupção total da razão humana. Se a razão estivesse completamente corrompida, ela não poderia servir como instrumento válido para a teologia.
Nesse sentido, a rejeição da filosofia e da razão na teologia é coerente com a teologia protestante clássica. Contudo, essa perspectiva contrasta fortemente com a tradição católica, que reconhece a razão como criada por Deus e, portanto, capaz de cooperar com a fé.
O próprio Harnack reconhece que Lutero, apesar de tentar desdogmatizar o cristianismo, acabou criando novos dogmas, como o da sola fide, considerado por ele um articulus stantis et cadentis Ecclesiae, isto é, um artigo do qual dependeria a permanência ou a queda da Igreja.
7. A Tentativa de Desdogmatização do Cristianismo
Harnack propõe uma redução do cristianismo a duas verdades fundamentais:
- Deus é Pai;
- Todos os seres humanos são irmãos.
Essa proposta buscava promover uma fraternidade universal, eliminando os conflitos doutrinais. Trata-se de uma tentativa de desdogmatizar e deshelenizar o cristianismo, retirando dele toda influência filosófica.
Contudo, essa posição foi amplamente criticada por diversos teólogos, entre eles Jean Daniélou, que demonstrou a importância da razão filosófica para a teologia cristã e refutou as teses de Harnack.
8. As Escolas Teológicas da Antiguidade Cristã
Nos primeiros séculos do cristianismo, destacaram-se duas grandes escolas catequéticas e teológicas: a Escola de Antioquia e a Escola de Alexandria. Esta última foi profundamente influenciada por Orígenes, um dos maiores gênios da Antiguidade e um dos primeiros a estruturar sistematicamente o pensamento teológico cristão.
Ao lado de Orígenes, destacam-se Santo Irineu de Lião e Tertuliano como três grandes pilares da teologia antiga. Santo Agostinho, embora seja um dos maiores gênios da história do pensamento cristão, pertence a um período posterior e recebeu a herança teológica desses autores.
A obra Contra as Heresias, de Santo Irineu, apresenta uma estrutura teológica exemplar e desempenhou papel fundamental no desenvolvimento da doutrina cristã.
9. O Uso da Filosofia no Cristianismo Primitivo
O cristianismo primitivo não rejeitou a filosofia. Um dos primeiros a utilizá-la de modo sistemático foi Justino de Roma, que morreu por volta do ano 165. Ele afirmava ter encontrado no cristianismo a verdadeira filosofia e utilizava categorias filosóficas para pensar a fé cristã.
Tertuliano, nascido por volta do ano 160 e falecido provavelmente em torno de 220, embora tenha se afastado da Igreja em determinado momento, exerceu enorme influência no pensamento teológico. A Igreja Católica continua a utilizar seus escritos, inclusive de forma oficial. Estima-se que Tertuliano tenha introduzido cerca de 900 termos no vocabulário teológico latino, entre eles os conceitos de Trindade e Pessoa.
10. Desenvolvimento da Doutrina e Tradição
A reflexão sobre o desenvolvimento da doutrina foi aprofundada por São John Henry Newman, que demonstrou que o crescimento doutrinal da Igreja é orgânico e harmônico, semelhante ao crescimento de um corpo humano.
A doutrina pode se desenvolver, mas não pode se transformar de modo contraditório. Um desenvolvimento que acrescenta elementos estranhos à fé original seria monstruoso. O discernimento desse crescimento harmônico é realizado pela ação do Espírito Santo na Igreja, especialmente por meio do Magistério.
A excomunhão, nesse contexto, aparece como um remédio disciplinar destinado a preservar a integridade da fé, conforme já indicado por São Paulo em Gálatas 1.
11. Orígenes e Santo Agostinho
Orígenes, falecido em 254, destacou-se por sua extraordinária capacidade intelectual e por seu profundo domínio da cultura de seu tempo. Entre suas obras mais notáveis está a Hexapla, uma Bíblia organizada em seis colunas linguísticas, utilizada para a comparação crítica dos textos bíblicos.
Por fim, Santo Agostinho, falecido em 430, sintetiza e eleva todo esse patrimônio intelectual, encerrando o grande ciclo da teologia antiga e preparando o terreno para os desenvolvimentos posteriores.
12. A Culminância em Santo Tomás de Aquino
A relação entre filosofia e teologia alcançará seu ponto culminante no século XIII com Santo Tomás de Aquino, falecido em 1274. Seu discernimento na utilização da filosofia, especialmente a aristotélica, marcará profundamente toda a história da teologia ocidental.
O estudo desse discernimento será objeto de análise em etapa posterior.
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