1. Introdução
Esta terceira aula dedica-se ao estudo das relações entre fé e teologia, partindo de uma reflexão clássica inspirada em Santo Agostinho de Hipona, cuja contribuição permanece fundamental para a compreensão teológica do ato de crer.
2. As Três Formas do Ato de Crer em Santo Agostinho
Santo Agostinho distingue três expressões latinas que descrevem dimensões distintas do ato de fé:
2.1. Credere in Deum — Crer em Deus
A expressão credere in Deum significa crer em Deus no sentido de entrar em Deus, isto é, uma fé marcada pela entrega, confiança e adesão total da pessoa a Deus.
Do ponto de vista gramatical, o uso da preposição in com o acusativo indica movimento com entrada no lugar. Trata-se, portanto, de um movimento existencial no qual o sujeito não apenas se dirige a Deus, mas penetra nessa relação, estabelecendo comunhão.
Essa forma de fé é denominada fé subjetiva, pois enfatiza a atitude interior do sujeito crente, que se entrega totalmente a Deus. Tal dimensão foi amplamente desenvolvida pela tradição mística cristã, especialmente em autores como São João da Cruz, que descrevem Deus habitando no centro da alma.
2.2. Credere Deum — Crer em Deus enquanto conteúdo da fé
A segunda dimensão do ato de crer refere-se ao conteúdo objetivo da fé, isto é, à adesão às verdades reveladas por Deus.
Essa forma de crer manifesta-se na profissão do Credo, quando se afirma a fé em Deus Pai, em Jesus Cristo, na Igreja, na comunhão dos santos e em todos os artigos da fé. Trata-se da chamada fé objetiva, também denominada fides quae creditur — aquilo que é crido.
A fé cristã não pode restringir-se apenas à dimensão subjetiva, sob pena de degenerar em sentimentalismo religioso. A ausência de um conteúdo objetivo compromete a autenticidade da fé, como ocorreu em determinadas concepções teológicas, especialmente na noção de fé fiduciária, que prescinde dos dogmas e da objetividade da revelação.
2.3. Credere Deo — Crer por causa de Deus
A terceira dimensão do ato de fé refere-se ao motivo formal da fé. Crê-se não porque uma autoridade humana afirmou algo, nem porque a ciência demonstrou determinado fenômeno, mas porque Deus revelou.
A razão última da fé está na veracidade divina: Deus não se engana nem engana. Todos os dados científicos podem servir como apoio ou preâmbulo da fé, mas não constituem seu fundamento último. O fundamento é sempre a autoridade de Deus que revela.
3. A Estrutura Tripla do Ato de Fé
O ato de fé autêntico é composto por três dimensões inseparáveis:
- Aspecto subjetivo (credere in Deum): a entrega pessoal a Deus
- Aspecto objetivo (credere Deum): os conteúdos da fé revelada
- Motivo formal (credere Deo): a autoridade de Deus que revela
Essas três dimensões formam um verdadeiro tripé. A ausência de qualquer uma delas compromete a integridade do ato de fé.
4. A Fé como Resposta à Revelação
A fé surge sempre em resposta à revelação divina. Conforme ensina São Paulo:
“Fides ex auditu” (Rm 10,17) — a fé vem pela escuta.
Não há revelação sem alguém que escute. A revelação é essencialmente relacional e dialógica: Deus fala, o ser humano escuta e responde. A resposta humana à revelação divina chama-se fé.
A história da salvação, desde Abraão até os apóstolos, estrutura-se nesse diálogo permanente entre Deus que se revela e o homem que responde.
5. Características Essenciais do Ato de Fé
O ato de fé possui características concretas e bem definidas:
Ato de Assentimento: Crer implica consentir intelectualmente naquilo que Deus revelou.
Ato Livre: A fé é necessariamente livre. Qualquer forma de coação elimina a autenticidade do ato de fé.
Ato Incondicionado: A fé não pode ser seletiva. Não se pode aceitar apenas algumas verdades reveladas e rejeitar outras. A fé autêntica é total.
Ato Razoável: A fé não é irracional nem absurda. Embora ultrapasse a razão, não a contradiz. Ela é superior à razão, mas nunca contrária a ela.
Dom Sobrenatural: A fé é um dom de Deus. O ser humano pode pedi-la, mas não pode produzi-la por si mesmo. O início, o crescimento e a perseverança na fé dependem da ação divina.
6. Fé e Vida Moral
A fé implica necessariamente um modo de viver. Crer significa viver segundo Cristo. Embora essa dimensão pertença mais diretamente à teologia moral, ela é inseparável do ato de fé.
7. O Desenvolvimento da Fé e o Dogma
A fé possui um desenvolvimento orgânico ao longo da história da Igreja. Os dogmas não são invenções tardias, mas o resultado de um processo de amadurecimento da fé apostólica.
O dogma é uma verdade revelada solenemente definida, fruto da reflexão contínua da Igreja sobre o depósito da fé. Ele representa o ponto culminante de um processo, mas também o ponto de partida para novas reflexões.
8. Desenvolvimento Dogmático Autêntico
O desenvolvimento da fé deve ser harmônico, no mesmo sujeito, sem rupturas ou contradições. Assim como um embrião humano só pode desenvolver-se como ser humano, o desenvolvimento da fé não pode resultar em conclusões contrárias àquilo que sempre foi crido.
Desenvolvimentos que contradizem a fé constante da Igreja não são autênticos, mas deformações.
9. Fé, Teologia e Fidelidade
A teologia é o pensamento científico sobre a fé e está a serviço dela. O teólogo deve exercer sua reflexão com fidelidade à revelação e ao desenvolvimento legítimo da fé, evitando heresias, rupturas e conclusões absurdas.
A teologia autêntica é coerente, harmônica e racional, porque se fundamenta em Deus, que é verdade e não falha.
10. Conclusão
A fé cristã é uma realidade viva, racional, sobrenatural e dinâmica. Seu desenvolvimento, quando autêntico, conduz à verdade, à comunhão com Deus e à salvação. A teologia, por sua vez, existe para servir essa fé, iluminando-a sem jamais traí-la.
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