1. A Compreensão Moderna de Ciência e o Desafio da Teologia
Diante das considerações anteriores, torna-se claro que a teologia é, de fato, uma ciência, mais especificamente, a ciência da fé. No contexto contemporâneo, contudo, tende-se a reconhecer como ciência apenas dois tipos de saber: as ciências exatas, como a matemática, e as ciências experimentais, como a medicina. Nesse cenário, a afirmação da teologia como ciência pode parecer uma incursão indevida em um campo conceitual considerado ao mesmo tempo amplo e rigorosamente delimitado.
No entendimento moderno e restrito, ciência seria apenas aquilo que pode ser mensurado, experimentado e reproduzido empiricamente. Tal concepção, no entanto, não corresponde ao conceito clássico de ciência.
2. O Conceito Aristotélico de Ciência
Segundo o conceito aristotélico, ciência é o conhecimento pelas causas. A partir dessa definição, não apenas as ciências exatas ou experimentais se enquadram no conceito de ciência, mas também a filosofia, a teologia e diversas ciências humanas, ainda que não sejam experimentais em sentido estrito.
Sob essa perspectiva, o estatuto científico da teologia encontra sólido fundamento, pois ela busca compreender a realidade última a partir de seus princípios e causas mais profundas.
3. A Teologia como a Ciência Mais Elevada segundo Santo Tomás de Aquino
Santo Tomás de Aquino apresenta um argumento decisivo ao afirmar que a teologia não é apenas ciência, mas a ciência mais elevada. Segundo ele, quanto mais nobre for o objeto de uma ciência, mais nobre será essa ciência. Ora, o objeto da teologia é Deus. Consequentemente, a teologia ocupa o grau mais alto no conjunto dos saberes humanos, situando-se acima do ponto culminante do conhecimento científico.
Assim, tanto a argumentação aristotélica quanto a tomista confirmam a cientificidade da teologia, ajudando a superar concepções positivistas que restringem a ciência ao âmbito do experimental.
4. A Necessidade de uma Racionalidade Aberta
É necessário evitar uma redução indevida do conceito de ciência e de seus métodos. A teologia requer uma racionalidade aberta, não uma racionalidade fechada que exclua, de antemão, as ciências humanas e o saber teológico.
Joseph Ratzinger insistia na importância de uma racionalidade capaz de acolher toda a verdade, seja ela expressa em fórmulas matemáticas, no diagnóstico da saúde do corpo humano ou na realidade da criação, da salvação e da graça. Nesse sentido, a teologia apresenta-se como uma ciência do real, pois trata das dimensões mais profundas da realidade.
5. Críticas Contemporâneas à Cientificidade da Teologia
Diversos pensadores contemporâneos, entre eles Jürgen Habermas, levantaram críticas à aplicação do conceito de ciência à teologia. Tais críticas suscitaram respostas consistentes, entre as quais se destaca a de Joseph Ratzinger, que reafirma a legitimidade científica do saber teológico.
Historicamente, até aproximadamente os séculos XI e XII, a teologia apresentava-se predominantemente como uma meditação piedosa das Sagradas Escrituras, marcada por forte dimensão espiritual, mas com menor preocupação sistemática e racional. Nesse período, é difícil atribuir-lhe plenamente o caráter científico no sentido estrito.
Essa afirmação, contudo, deve ser devidamente matizada e não absolutizada.
6. O Surgimento da Teologia Científica na Escolástica
Com o desenvolvimento metodológico promovido por autores como Pedro Abelardo, Pedro Lombardo e, sobretudo, Santo Tomás de Aquino, a partir dos séculos XII e XIII, a teologia assume claramente um caráter científico. Nesse momento, pode-se afirmar com segurança que a teologia alcança um nível de sistematização e rigor capaz de situá-la plenamente no âmbito universitário.
Nas universidades medievais, criadas sob a influência da Igreja Católica, a teologia ocupava o lugar central, para o qual convergiam todos os demais saberes. Tal estrutura expressava a compreensão de que todas as ciências se ordenam, de algum modo, à verdade última tratada pela teologia.
7. A Teologia na Universidade Moderna
Em algumas universidades modernas, a presença de uma faculdade de teologia expressa o reconhecimento de que Deus pode ser objeto de estudo científico e sistemático. Essa presença afirma que a fé cristã não é irracional, mas possui uma racionalidade própria, capaz de dialogar com os demais saberes acadêmicos.
A partir do século XIII, o conceito de ciência pode ser aplicado com propriedade à teologia, sobretudo à luz das contribuições de Santo Tomás de Aquino.
8. As Conclusões de Santo Tomás sobre a Cientificidade da Teologia
Santo Tomás de Aquino apresenta duas conclusões fundamentais:
- A teologia como desenvolvimento ordenado da fé
A teologia manifesta seu caráter científico ao organizar racionalmente os conteúdos da fé, desenvolvendo-os de modo sistemático e causal, conforme o conceito aristotélico de ciência.
- A teologia como ciência dependente
A teologia é uma ciência verdadeira, mas dependente de uma ciência superior: a ciência de Deus e dos bem-aventurados. O teólogo não conhece como Deus conhece nem como os santos conhecem, mas participa antecipadamente desse conhecimento.
Nesse sentido, a teologia supõe sempre uma referência à ciência superior que constitui sua meta última.
9. A Teologia e a Revelação Divina
A teologia depende essencialmente da Revelação divina, da qual recebe seus princípios. Seu método consiste em acolher esses princípios e desenvolvê-los racionalmente. Trata-se, portanto, de uma ciência inferior em relação à ciência de Deus, mas plenamente científica em seu próprio âmbito.
Como afirmava o Papa Pio XII, toda descoberta científica autêntica conduz, de algum modo, ao encontro com Deus. Por isso, não há oposição entre fé e ciência; ao contrário, toda verdadeira ciência jamais contradirá a fé católica.
10. A Tradição Agostiniana e a Questão da Ciência
A tradição teológica de matriz agostiniana, representada de modo especial por São Boaventura, apresenta uma compreensão distinta da ciência teológica. Nessa tradição, a teologia é fortemente orientada para a vontade e para o amor a Deus, em vista da felicidade eterna.
Essa ênfase dificulta, embora não impeça, a aplicação do conceito moderno de ciência à teologia agostiniana, pois a ciência, em sentido estrito, funda-se primariamente na inteligência e na racionalidade. Ainda assim, autores dessa tradição realizam um trabalho intelectual rigoroso, demonstrando, na prática, a centralidade do saber teológico.
Joseph Ratzinger exemplifica bem essa síntese, ao integrar elementos agostinianos e bonaventurianos sem abandonar os princípios tomistas.
11. Pluralidade de Escolas Teológicas e Unidade da Fé
O desenvolvimento teológico legítimo não contradiz a fé católica e se expressa por meio de diversas escolas teológicas: tomistas, franciscanos, agostinianos, entre outras. Cada uma delas enfatiza aspectos distintos do mesmo depósito da fé.
A teologia não exige adesão exclusiva a uma escola específica, mas abertura ao diálogo entre tradições. Assim como Aristóteles dialogou criticamente com Platão, também a teologia se constrói no confronto respeitoso entre diferentes perspectivas.
12. Limites e Atualizações da Teologia de Santo Tomás de Aquino
Embora Santo Tomás de Aquino ofereça fundamentos sólidos e perenes, sua obra não contempla desenvolvimentos posteriores, como a eclesiologia do Concílio Vaticano II. Para compreender adequadamente esses temas, torna-se necessário recorrer a teólogos contemporâneos, como Joseph Ratzinger, Yves Congar, Henri de Lubac e Pedro Rodríguez.
O Magistério é quem realiza as correções e atualizações doutrinais, sempre no exercício legítimo de sua autoridade.
13. A Teologia e as Outras Ciências Religiosas
A teologia mantém uma relação de colaboração com outras ciências religiosas, como a história comparada das religiões, que estuda as manifestações religiosas sem se pronunciar sobre seu valor intrínseco. Da mesma forma, a filosofia da religião investiga racionalmente o fenômeno religioso, mas não se identifica com a teologia.
A teologia distingue-se por ser um saber sistemático sobre Deus e as realidades divinas, fundamentado na Revelação e desenvolvido racionalmente.
14. Conclusão: A Teologia como Ciência em uma Racionalidade Aberta
A teologia é um saber científico, racional e ordenado, inserido em uma racionalidade aberta e sempre em progresso. Seu objeto é inesgotável, pois trata do mistério de Deus. Por isso, permanece em constante diálogo, investigação e aprofundamento.
Na sequência, a reflexão teológica avançará para a distinção entre ciência especulativa e ciência prática, aplicadas ao estudo da teologia.

